PEDRO NUNES
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Os últimos dias. (Parte I e Parte II)
Barulho
O homem sem pernas
Dias para não morrer
Aquém
Quando ela viu um homem morrer
Efémero
A forma do não-mundo
Alberto Caeiro à chuva

DIAS PARA NÃO MORRER
Lembro-me de pouco.
Não são filmes que recordo. Não são slides sequenciais. Não tenho imagens ou sons. Só a experiência; a tradução dos sentidos.
Lembro-me de sentir.
O vento na pele, e as pequenas vibrações, como fios de água, rasgando-me os tímpanos.
Lembro-me do desfasamento.
O corpo e depois a alma; tensão num plano fixo e, noutro instável, a ascenção.
Lembro-me do meu peito.
Da carência de informação. Do estender de algo subcutâneo, através das fissuras da pele, como o contraste do vazio e da ausência.
Lembro-me de cair.
E, na queda, de o meu corpo girar sobre si, de o mundo ganhar uma nova vertente, diferente de qualquer outra coexistente em mim. De, nos momentos que antecederam o embate contra o solo, sentir cada fibra do universo a articular-se à minha insignificância, numa total ausência de conceitos, agarrando-me como a dor agarra a carne até a carne perecer.
Lembro-me do embate.
Da abrupta cisão. Dos movimentos circulares dominantes, remetendo-me a espectador da minha morte. Mas e daí? Somos todos espectadores.
Lembro-me de não querer morrer.
Não num estado consciente – mas as minhas entranhas, a falar sem boca ou palavras, rugindo de dentro de mim que a morte é a paragem em ultimato, e nada que pára em ultimato é bom. Mas o meu corpo, vassalo das leis do universo, girou eterno.
Lembro-me de aceitar.
Ou da sensação de aceitação. Da quebra de um fundamento.
Lembro-me de não cair.
Do meu corpo estancar na margem, a uma rotação da queda-livre e da cama de rochas. O sangue nos lábios. O retorno do som. A ausência no corpo, preenchida em camadas, numa noção temporal abstracta. Depois a visão, as cores, o tacto, a consciência e, só no fim, a realidade.
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