QUANDO ELA VIU UM HOMEM MORRER
Não há dor que não seja perda. E a perda é a forma mais bela de amar algo. Ninguém lhe disse – quem é que lhe poderia ter dito? – mas ela soube-o; soube-o no segundo que perfez o momento. E o momento – perfeito pelo segundo – foi breve, mas preciso na descrição. Ela viu um homem morrer. E a morte veio buscar o homem sem que ninguém o esperasse. Pouca importância teve o resto, daí para a frente.

O carro que o esmagou, só parou noutra cidade, já a noite tinha dado a volta e a revolta. A carne dele – era suave e reservada – ficou agarrada à estrada, como os pombos descuidados ou excessivamente confiantes. Ela não o conhecia – como podia? – foi a primeira vez que o viu, quando ele passou ao lado dela, arriscando o vermelho dos peões, só para não tardar a chegar ao outro lado. Ela viu-lhe o rosto, o sorriso rasgado, o toque amistoso no seu ombro amargo, e as palavras simples de um homem para morrer: “desculpe, estou com pressa.” Com pressa, ele passou. Não chegou ao outro lado, mas certamente que isso deixou de importar, no momento em que o crânio embateu contra o asfalto, e o asfalto absorveu o impacto do crânio, retribuindo parte, que lhe foi retribuída, que retribuiu, que lhe foi retribuída.

Foi um breve momento – mas contaminou o anonimato. Deixou de ser um homem a morrer; tornou-se num rosto, num sorriso rasgado, num toque amistoso, nas palavras simples. Ela sempre disse que a morte é natural, mas pouco há de natural em ser esmagado entre asfalto e borracha, porque um semáforo ordena a parar e ele não parou. Seria mais natural vê-lo morrer no abraço de um urso? Na boca de um lobo? Num ataque cardíaco?

Percebeu que o amava no momento em que ele morreu – o que significa que: ou vê-lo morrer fez com que ela o amasse, ou vê-lo arriscar um vermelho fez com que ela o amasse. Denota-se estupidez em ambas – numa intrínseca, noutra por consequência, respectivamente ou não. Um mês depois, ainda o vê. Passa na estrada todos os dias, e todos os dias o vê morrer.

Não há dor que não seja perda, de onde se induz que não há perda que não seja dor. E se a perda é a forma mais bela de amar algo, então “desculpem-me o cliché” diz ela, mas amar algo é a forma mais bela de o perder. E se a perda é inevitável, porquê escolher outra forma qualquer? O cérebro entende, mas ela não. Ela não entende.