PEDRO NUNES
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Os últimos dias. (Parte I e Parte II)
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O homem sem pernas
Dias para não morrer
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Quando ela viu um homem morrer
Efémero
A forma do não-mundo
Alberto Caeiro à chuva

A FORMA DO NÃO-MUNDO
– “Hoje vais dormir bem.” – Sussurrou ela, a voz rasgando a monotonia do silêncio, mas só por um breve segundo, um segundo que só se estendeu exactamente, precisamente por um segundo – “E amanhã, quando acordares, já não estarei aqui.” – Um sorriso. Triste, abatido pela mágoa de quem deixa o coração para partir – qual bilhete, qual bagagem – sabendo que, ao voltar, nem o coração será o mesmo, nem o lugar onde o deixou.
– “É assim, a vida.” – Comentou ele, a voz arrastando-se por entre sílabas pesadas e lágrimas nervosas – “Que é o mesmo que dizer que a vida é como é, e nós somos como somos, e nada interessa mais do que qualquer outra coisa.” – Ela falhou a compreender as palavras dele, ou ignorou, ou não as ouviu; mas, de qualquer das formas, não lhe amargurou o espírito. Agarrou-se a ele, cabelos sobre o peito, suave ao toque mas áspero aos sentidos, e fechou os olhos como uma criança em desejos.
– “Para onde vais, daqui?” – Perguntou ele.
– “Daqui? Tenho mais uns quantos para ir ver.” – Respondeu ela, a cada palavra dando parte de si, parte do sentido.
– “São todos como eu?”
– “Sim, não. Há muitos. Todos chegam a mim, só não todos pelo mesmo caminho. Como em tudo. Mas porque queres saber?”
– “Podíamos formar um clube.”
A gargalhada dela – uma melodia consonante a saltitar pelos lençóis – foi quase de gozo, mas ele não levou a mal, nunca leva a mal quando o gozam de um modo tão belo.
– “E o que chamarias ao teu clube?” – Perguntou ela.
– “Não podia ter nome. Fugiam todos de vergonha.”
Ela abafou o riso com as mãos, a princípio, mas quando ele se juntou, riram-se os dois, desavergonhadamente.
– “Bem, vamos a isto?” – Declarou ela, com um toque de ombro.
Ele suspirou, mas resignou-se à vontade maior. Girou sobre si mesmo, e estacionou na borda da cama. Vasculhou, com a mão, pelo chão do quarto, mas a escuridão dificultou-lhe a busca. Por fim, lá sentiu o cabo da faca. Voltou-se para ela – faca na mão, coração no peito – e olhou-a de cima a baixo.
– “O mais fácil é ires pela barriga. Não tens como partir as costelas.” – Comentou ela, em parte despertando-o para a depravação do momento.
– “Isto é tudo figurativo, certo?” – Perguntou ele, a mão tremendo-lhe.
– “Claro. Repara.” – Disse ela, apoiando a sua mão na dele e empurrando-lhe o braço de uma vez. A lâmina da faca desapareceu por completo no ventre – “Achas que se fosse real, eu não estaria a gritar com dores?”– Comentou ela, sorrindo-lhe numa calma serena, sinónimos enfáticos. Ele moveu a faca – para cima primeiro, para baixo depois – criando uma fissura de maiores dimensões. Depois, enfiou a mão direita – por entre vísceras e circunvoluções – até chegar ao diafragma.
– “Com violência, agora.” – Pediu ela. Ele ganhou ímpeto e, num soco, rasgou o músculo, abrindo caminho para a cavidade torácica – “Agora agarra e puxa.”
Descobriu o coração sem dificuldade, e envolveu-o por completo. A massa muscular, húmida e escorregadia, envolveu-lhe os dedos de volta, como se a sua mão tivesse passado a fazer parte do coração e, por extensão, ele todo fosse parte do todo dela. Sentiu os batimentos. tum tum. tum tum. Num movimento único, arrancou-o e trouxe-o pela cavidade torácica, diafragma, cavidade abdominal, superfície. A escuridão pouco lhe permitiu, mas conseguiu distinguir – e sentir – o sangue a escorrer-lhe por todo o antebraço, esguichando ainda rios para cima dos lençóis.
– “Estás a ver essa artéria grossa aí em cima?” – Ele acenou um sim mudo – “Mete o dedo por aí, assim que sentires um papel, podes tirar.” – Ele assim o fez, removendo o dedo mal sentiu um papel, e descobriu-o agarrado à ponta do indicador, colado pelo sangue – “E agora?”
– “Abre o papel.”
– “Tem o meu nome.”
– “Então, podes pôr tudo de volta.”
Ele obedeceu, enfiando o coração no seu sítio de origem e unindo as pontas rasgadas do diafragma e, depois, da pele do ventre.
– “Já está?”– Perguntou ele.
– “Sim.” – Respondeu ela, num sorriso.
Ele voltou-se de costas para ela e aconchegou-se no lençóis, em posição fetal. Os braços dela envolveram-no em menos de nada, e um calor irradiou-lhe da pele, insignificante para qualquer outro momento em excepção do momento – exacto, preciso – em que os braços dela o envolveram.
– “Amanhã já não me lembro de ti?”
– “Amanhã já não te lembras de mim.”
– “O que é que isso significa?”
– “Significa que amanhã vês o mundo. E eu sou a antítese; sou a forma do não-mundo; sou a crença na descrença; o real do que não existe; as concepções órfãs que nunca matam a fome. Eu sou o que tu esqueces – só e somente o que tu esqueces.” – Ela pousou a mão direita sobre os olhos dele, a esquerda sobre o nariz e a boca e, na ausência de luta pela sobrevivência, desvaneceu-se, gentilmente.
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