CRÓNICAS PARA DORMIR (VI)
Reentrâncias. A noite chega devagar, e devagar penetra nos rasgos, delimitando a arquitectura que perdurará até o dia nascer. Ouço palavras – sussurros que gritam entre silêncios. Somente em repouso se ouvem – paradoxos inconscientes de si, como uma cria que chora sobre o corpo da mãe, sem compreender vida, morte ou mãe. Não questiono. Ouço discussão – palavras que não interessam. Que mais são do que limitantes tentativas de vocalizar desequilíbrios? Não as desejo: o que dizem não me aconchega quando o frio ruge lá fora; o que gritam não me protege quando abro mão das minhas crenças. Mas sabem lá elas. As dissonâncias com que se expressam – as faltas de entendimento, de compreensão – são meros reflexos da divindade que as criou, uma epopeia de vibrações e coordenação muscular.

Vivo em comunhão com o vírus – é quase divino, consonante. Pede-me o extermínio do que nos segrega, para que possa vê-lo em mim, parte de mim, sangue do meu. “Isso não é simbiose.” digo-lhe, temente. Ele ri-se. Se comer o que eu como, se pensar no que eu penso, se usar o meu cérebro, o meu corpo, a minha complexidade biológica – é a ele que vês? Onde termino, onde começo?

Ouço uivos – discussões aglutinadas. Nada mais desejo, do composto, do que a culpa. Não me leves a mal, reconheço o egoísmo – mas em pouco mais se manifesta o altruísmo do perdão. É circular: viver, amar, sofrer.