CRÓNICAS PARA DORMIR (V)
A noite vem nos dias negros. Vem igual nos dias serenos. Vem alheia, negligente, em desamores com o mundo que orbita (ou ela ou eu). Vem, como tudo o que sucede. Cada seguinte é presente no tempo de o conceber, e o presente é imutável, é o real do abstracto, o filtrado dos possíveis. A noite sabe que é inevitável. Sabe-o – num saber empírico – pela experiência de sempre voltar; quer haja guerra ou paz, esperança ou desordem; quer se viva ou se mate, se tema ou se ame. A noite reina nos cantos que ninguém quer. E é nestes reinos, que ninguém quer, que a noite cega, para me proteger; que sobe os rios, para esconder dos meus olhos o que me fere.

Fecho os olhos. Vejo o rio. O rio que corre. Os pés que o pisam. Quem vê nisto violência? “De que foge o rio?” Pergunto – não ao rio, porque a água que me ouve, já vai lá ao fundo e eu estou aqui, no mesmo chão. Talvez ela grite uma resposta, talvez tente remar em sentido inverso, mas é indiferente: o rio já não é o mesmo, e o homem também não. “O que esconde o rio?” Pergunto – mas não quero ouvir. Folgo em saber que a verdade se esconde no desalmo com que o rio corre; e os corpos que transporta – os correres que saíram fora de mão – vão velozes, livres por fim, escondidos na raiva espumosa da água. “Quem comanda o rio?” Pergunto – abro os olhos. O rio desvanece, assim como a humidade nos meu pés. Um frio intenso colide com o meu corpo, recordando-me que eu não vi o rio, que nem próximo estou de o ver. Imagino-o, é certo, mas faço-o na penumbra da noite, nos desenhos que ela me sussurra, por entre afectos de cegueira. “O rio é só o rio.” – Diz ela – “E tu és só o homem. E eu sou só a noite.” Mas mal ela termina, já o rio não é o rio, o homem não é o homem, e a noite não é a noite.