CRÓNICAS PARA DORMIR (III)
Na ausência de fome, ambiciono a comida. Será isto o que é tudo o resto? O sabor do que me atormenta é edulcorante; reconheço o vício, a dependência, a obsessão – soberana ao meu ser; mas é cruel, a emancipação, e de que serve o alento? As virtudes são concepções que justificam a fraqueza – geram-na e fecundam-na, fertilizam-na e procriam-na. Sufoca-se a fraqueza, e sucumbe a filosofia, a ciência – e o universo quer lá saber. A natureza não precisa de condecorações.

O prazer é universal. De um orgasmo ao contentar da fome, o núcleo accumbens não discerne: prazer é dopamina, dopamina é prazer. O glutamato, por sua vez, está associado à aprendizagem e memória. A dopamina interage com o glutamato, estabelecendo o sistema de aprendizagem com base em recompensas, indispensável à vida. A exposição repetitiva traduz-se numa comunicação entre as células do núcleo accumbens com o cortéx pré-frontal (planeamento/execução de tarefas), associando-se o prazer ao desejo e procura:

  • Comer é recompensado com dopamina, criando a procura pela comida;
  • Orgasmo é compensado com dopamina, criando a procura pelo sexo;

Assim, o prazer deixa de ser um processo passivo, torna-se algo que intentamos, numa busca activa.


A natureza não nos favorece; concede-nos a vida, negligente. Contudo, é nessa negligência que vive a maior compaixão.

Ele deambula – para frente, para trás, para o canto comum, a velhota amistosa. 4 dias sem comer. Ele não sente os dias, mas o aperto no estômago que-ele-não-sabe-que-é-um-estômago, desespera-o a manter o movimento. Vê o caixote ao longe. Ao aproximar-se, reconhece um odor saciante, e o saco de plástico a meio-termo entre cair no chão ou cair dentro do caixote e longe dele. Move-se com cuidado – já por vezes suficientes foi sôfrego e violento, causando o saco a cair para o lado errado. Ao chegar ao caixote, contrai as pernas traseiras, ergue o focinho, abre a mandíbula e, por um segundo, estanca – não porque hesita, mas para dar tempo ao cérebro de precisar as distâncias, a matemática intuitiva que ele desconhece. Salta, num movimento em cadência, em que cada célula do corpo harmoniza com as restantes – o orgasmo da criação. Agarra o saco nos dentes e, ao cair, o saco cai com ele. Desfigura-o num segundo, e alimenta-se do seu conteúdo. O prazer – dopamina.


Na décima refeição, já não sinto as veias. É curioso, não me lembro de comer, sequer. Foi-me prometido dopamina. Estou irritado. O volume da música está tão alto. Ainda há pouco me sentei a ouvir. Aproximo-me e baixo o volume. Música bonita. Não me diz nada. Ainda há pouco, chorei com ela.

Na ausência de fome, ambiciono a comida. Quem é que eu engano? Ambiciono a dopamina. De qualquer forma, de qualquer fonte.