CRÓNICAS PARA DORMIR (I)
Está escuro. Breu adorna o frio, ou o oposto – é tudo o mesmo e coisa nenhuma.

Avançam pela noite, quando dorme a razão, e guerreiam o miúdo numa guerra desigual, num confronto corrosivo, numa questão de dominância. Vulnerável, surgem os vícios como raposas – as defesas das mentes débeis. Criam as sensações que os sentidos intentam, numa relação desarmoniosa de causa-e-efeito.


A escuridão já não me assusta. O meu eu de 10 anos ficaria orgulho dos avanços nos temas da penumbra. Contudo, temo dizer-lhe que os medos não se perderam – diversificaram-se. Sei que ele não vai entender, e como posso eu culpá-lo?

Não chores, rapaz. São as voltas da vida.” No fim, e no fundo, nada foi feito para fazer sentido, é só o nosso desejo; por isso, não te questiones de que servem estas guerras – são guerras, servem para guerrear. “E para que serve guerrear?” Eu não sei, rapaz.


Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas; em todo o lado encontro escondido peças do medo que deixei a dormir, quando me levantei. Talvez alguém o tenha despertado – afinal, o que é um medo que dorme descansado? – e, ao descobrir-se sozinho no quarto, inverteram-se os papéis e fugiu assustado. Desde então, são as criaturas que se escondem, ao espreitar para dentro de mim – não para me comer, mas para não serem comidas.


Durmo melhor sem medo, mas não vivo melhor. É indigesto não ter medo de dormir; como engolir sem mastigar, ou mastigar sem dentes – prejudica tudo o que se segue, e o que se segue é tudo o resto. Na persiana, vejo os cantos de luz que se esgueiram – exíguos indícios do que a vida pode ser. “Pode?” Não sei, rapaz.