PEDRO NUNES



Noite

Noite.

Este ar gélido, que surge da ausência, alenta-me os sentidos.

Não sei quem governa os dias, mas quando a carruagem se desvanece, ao longe, e o Hélio descansa da extenuante viagem, os ventos já não são os mesmos.

Queima-me o frio, como o sol nunca queimou. Queima-me no inverso: de dentro para fora, do íntimo para o externo, do âmago para a aparência.

Contudo, não me fere. Tenho as entranhas em lume brando, as vísceras na lareira; e do calor que emana – que se liberta de mim como se eu fosse o próprio fogo – parte torna-se no que sinto, e parte no que não sinto.